ATALC denuncia e repudia assassinato do defensor dos povos indígenas Sergio Rojas na Costa Rica

Amigos da Terra América Latina e Caribe (ATALC) denuncia e repudia o assassinato de Sergio Rojas — indígena costarriquenho defensor dos direitos dos povos originários e defensor do território Bribri de Salitre ao sul da Costa Rica. Durante sua vida foi um incansável lutador pela autonomia indígena, enfrentando os grileiros de terras de suas comunidades.

Na última segunda (18) Sergio foi emboscado em sua casa, localizada na comunidade de Yeri, onde foi baleado 15 vezes. Horas antes de seus assassinato, membros da comunidade e Sérgio denunciaram às autoridades locais o uso de terras por pessoas não indígenas em seus territórios e também as ameaças constantes sofriadas há anos sem resposta efetiva por parte dos investigadores costarriquenhos. Este fato nefasto ocorre especialmente após medidas cautelares serem entregues pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para Salitre, comovendo aos povos indígenas e aos movimentos sociais do país caribenho e de toda América Latina.

Como organização ambientalista comprometida na busca por justiça ambiental, social, econômica e de gênero, e que trabalha pelo direito dos povos e das/os defensoras/os dos territórios, extendemos nossa solidariedade ao povo costarriquenho, às comunidades indígenas e à família de Sergio Rojas.

Fazemos também um chamado ao governo da Costa Rica e as autoridades e instituições competentes para que se agilizem nas investigações que darão conta dos responsáveis diretos e mandantes deste infame assassinato. Acreditamos ser fundamental que se entreguem explicações claras de porquê povos indígenas e seus representantes, como é o caso de Sergio, que se encontram expostos a violência permanente por sua luta justa e na defesa de direitos, não contam com proteção especial, necessidade amparada pelas medidas cautelares entregues pela CIDH.

Consideramos que apenas mediante a luta contra a impunidade e o cumprimento estrito do direito e a autonomia dos povos indígenas na Costa Rica, e ainda a partir da ação efetiva do Estado é possível evitar que casos como o de Sergio se repitam, e as permanentes ações de exterminio dos povos contra seu direito à autonomia e aos seus territórios.

À comunidade internacional, às organizações e aos movimentos sociais da América Latina e do Caribe e de diferentes partes do mundo: chamamos a denunciar o assassinato de Sergio Rojas. Mantenhamos o alerta permanente frentes as injustiças que seguem acompanhadas da impunidade contra nossos povos.

 

3 anos do assassinato de Berta Cáceres: a sua luta se multiplicou

Da RMR

No dia 2 de março completaram três anos do assassinato da hondurenha Berta Cáceres. Um feminicídio político que tentou silenciar as lutas que esta defensora dos direitos dos povos encabeçava junto aos povos originários Lenca e ao Conselho de Organizações Indígenas e Populares de Honduras (COPINH). Com este crime quiseram impedir a luta contra a instalação de projetos extrativistas, como a construção da hidrelétrica de Agua Zarca. Tentaram frear a organização coletiva deste país centro-americano, mas não conseguiram: Berta se multiplicou.

A educadora popular argentina Claudia Korol apresenta em seu livro “As revoluções de Berta” [em livre tradução] reflexões, a partir de conversas entre ela e Berta, sobre a realidade latino-americana sobre o golpe de Estado de Honduras, o governo de Manuel Zelaya – deposto em 2009 -, a reconstrução da Frente Nacional de Resistência Popular, a busca feminista para resolução de conflitos, a comunicação popular como parte da luta política, entre outros assuntos.

Lê-lo é ouvir a defensora dos direitos humanos, das mulheres, dos povos, dos territórios e dos rios em primeira mão, sem intermediários. Na sequência, alguns trechos da entrevista realizada com Claudia Korol pela Radio Mundo Real do Uruguai.

RMR – Antes se podia conhecer sua imagem em distintos âmbitos quando viva, com o seu assassinato sua figura se multiplicou. Também muito presa a sua luta ambiental, este livro trás outras dimensões que ela conjugava todo o tempo em sua luta.
Claudia – Sim, ela era uma mulher revolucionária que queria transformar profundamente, não apenas seu país, a América Central, ou nosso continente, mas o que buscava era revolucionar o mundo. Ainda que isso pareça demais, era também uma realidade que estamos agora vivendo muito dolorosamente: não compreender que quando não aceitam em profundidade os processos políticos populares, a possibilidade que se volte para trás, que se reverta e que se desalojem os povos de seus espaços é muito grande. Berta alertou muitíssimo sobre isso, creio que quem tenha acesso ao livro verá as intervenções de Berta quando se deu o debate do marco da Frente Nacional de Resistência Popular de Honduras sobre as possibilidades existentes nesta democracia tão restringida e fraudulenta de se conseguir uma mudança, como a que havia se sonhado em uma refundação de Honduras, a refundação de um outro país. É triste pensar que muito do que estamos vendo hoje dá razão a uma voz que não foi suficientemente ouvida em seu tempo. Nem ao menos quando falava em golpe de Estado, nem ao menos quando dizia que a volta de Honduras a OEA (Organização dos Estados Americanos) acordado por vários dos governos chamados progressistas iria complicar a luta do povo hondurenho. Para mim, é importante dizer que o que fica deste pensamento não é para dizer: “Berta tinha razão”. Mas, bem, Berta observou a realidade em profundidade, com a capacidade que possuía. Essa situação nos advertiu sobre muitos riscos. Agora é hora de estudar seu pensamento, em que se fundava. De sair destas lógicas politiqueiras. Às vezes, também as chamamos eleitoreiras, que significa o mesmo que dizer que é mais que só ganhar ou perder um voto e poder pensar realmente como fazemos para realizar transformações revolucionárias verdadeiras.

RMR – Quando lhe fizemos este convite em Honduras, quase de realismo mágico como você disse. “Vem a esperança, venha a utopia”. O que você viu aí quando visitou?
Claudia – Isto foi em março de 2010, fazia alguns meses depois do golpe de Estado quando já se organizaram o segundo encontro pela refundação de Honduras. E precisamente o que vi foi um povo deliberando em meio ao golpe, não sobre como resistir somente, nem principalmente, se haveria resistência, se se colocaria em jogo a vida de companheiros e companheiras. Se havia de dizer: por quê? Por qual sonho se estava caminhando, por qual sonho se estava colocando o corpo. Por que tipo de país, por que tipo de mundo, por que tipo de revolução se queria lutar. Não falando em geral de revolução, assim como um conceito propagandístico. E sim dizer: bom, o que queremos que aconteça com os bens comuns, com a água, com a terra, com as sementes? Com as relações entre homens e mulheres, com as pluralidades sexuais, com as forças armadas, com as forças repressivas do Estado? Poder olhar o conjunto das relações sociais como se constrói a governabilidade a partir da opressão. Que é o que estávamos propondo como organizações populares.

Abaixo a íntegra da entrevista em espanhol:

Vozes à prova de bala: conheça a história do ativista Guilherme Pérez

Conforme dados do Sistema de Informações de Agressões a Defensores de Direitos Humanos (SIADDH) da organização Somos Defensores, de 2016 a setembro de 2018 295 defensoras e defensores dos direitos humanos foram assassinados e outros 1046 sofreram ameaças na Colômbia.

Em função disso, a melhor forma de proteger aqueles que estão ameaçados neste momento é os transformando no centro das atenções e compartilhando suas ideias com o mundo, para que todos possam entender que suas lutas transcendem as suas comunidades, porque eles simplesmente têm “vozes à prova de bala”.

Este é o nome da campanha que toma os discursos de 11 defensoras e defensores dos direitos humanos que estão ameaçados na Colômbia. Com trechos de suas falas e ilustrações que remetem a elas e eles, busca-se que as vozes destas mulheres e homens cheguem a todo o mundo para que suas ideias tomem vida e possamos compreender que suas lutas cotidianas beneficiam ao país e ao continente latino-americano como um todo.

Esta iniciativa, realizada pelo programa não governamental de proteção a defensores de direitos humanos “Somos Defensores”, com apoio de artistas e meios de comunicação, mostra a diversidade de defensores de direitos humanos, ressaltando os defensores comunitários, regionais, dos direitos ambientais, de mulheres, de jovens, dos trabalhadores, das comunidades campesinas, indígenas, quilombolas, LGBTQ, entre outros.

A Amigos da Terra Brasil, em parceria com a Rádio Mundo Real, somam-se a difusão desta campanha para dar voz aos defensores do campo e da cidade que lutam cotidianamente, superando o medo, a falta de garantias, riscos e agressões iminentes a que estão expostos. Hoje conhecemos a história de Guilherme Pérez.

“Sou o representante da Associação de Campesinos e Comunidades Sem Terra da província de César. Desde então, viemos trabalhando pela defesa dos direitos campesinos, a restituição de terras e a defesa do território.

Desde o ano 2015 venho denunciando as capturas ilegais de líderes campesinos da serra de Perija (no norte do país) por parte da fiscalía (organismo independiente relativo ao poder judiciário da Colombia) e do exército com o plano de enfraquecer a luta pela defesa do território.

Também venho acompanhando as comunidades do corredor de mineração da província de César que se opõe a expansão da exploração de carbono, os danos ambientais e a desapropriação de terra por parte das multinacionais DRUMMOND e PRODECO.

Acompanhamos as assembleias campesinas pela restituição e a qualidade de vida em sua luta para que les restituiam suas terras desapropriadas por milicias e hoje dadas a concessão minera.

Recebi ameaças por diferentes meios de ligações telefônicas, emails em nome da organização Autodefensas Gaitanistas da Colômbia. Enviaram-me panfletos [com ameaças] para minha casa. Em várias ocasiões sujeitos armados encapuzados em motocicletas me entimidaram me acusando de guerrilheiro ‘filho da puta’ e que iriam me assassinar. Além disso fui perseguido em meus deslocamentos e também as minhas filhas. Também recebi ameaças de judicialização e intimidação da institucionalidade”.

Ouça o áudio original aqui.

 

Moradores do Cantagalo se mobilizam contra instalação de lixão na região

Moradores e comunidades indígenas da região do Cantagalo estão mobilizados contra um projeto da Prefeitura Municipal de Viamão que pretende instalar um aterro sanitário na rua Acrísio Martins Prates, na fazenda Montes Verdes. De acordo com os moradores, a comunidade não foi consultada pela prefeitura. A atividade do lixão é de grande porte e teria alto potencial poluidor.

Desde o final de 2018 há um processo na Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) para a autorização do manejo da fauna silvestre.

Nesta segunda-feira (04/02) um grupo de moradores e representantes indígenas realizaram uma manifestação contra a instalação do lixão, que segundo eles, poderá trazer problemas de saúde, ambientais e sócio-econômicos. Produtores orgânicos da região também temem pela contaminação da água e do solo.

Brumadinho (MG): o crime se repete

Três anos após o rompimento da barragem da mineradora Samarco que arrasou a cidade de Mariana, em novembro de 2015, o estado de Minas Gerais voltou a viver, na sexta-feira (25), uma nova tragédia envolvendo a mineração. Desta vez, uma barragem da Vale rompeu, inundando de lama grande parte do município de Brumadinho. Estima-se que 14 milhões de m³ de rejeitos foram despejados no Rio Paraopeba, um dos principais afluentes do Rio São Francisco. Cerca de 292 pessoas estão desaparecidas e ao menos 60 mortes já foram confirmadas pelo Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. Os rejeitos atingiram a área administrativa da companhia e parte da comunidade da Vila Ferteco. O governo federal montou gabinete de crise para apurar as causas do rompimento e também para orientar os resgates. O conselho é composto por dez ministérios: Casa Civil, Defesa, Cidadania, Saúde, Minas e Energia, Meio Ambiente, Desenvolvimento Regional, Direitos Humanos, GSI e AGU, mas não prevê a participação dos atingidos e atingidas.

“Sabemos que é um comitê interministerial, mas precisamos do IBAMA, da ANA, o INCRA, o Ministério da Agricultura, a Agência Nacional de Mineração, o Instituto Chico Mendes e a Funai participando pelo governo. O Ministério da Agricultura nem foi incluído no conselho interministerial. Esses órgãos que citei, sequer são citados no decreto” , afirma Joceli Andrioli, da coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). O Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) emitiu nota ainda no dia 25 criticando o licenciamento ambiental que pela segunda vez falhou na fiscalização no setor: “Em dezembro de 2018, a Vale obteve as licenças ambientais para ampliação da Mina do Córrego do Feijão de forma acelerada, desrespeitando os trâmites normais. O processo de obtenção das licenças ambientais foi realizado de maneira irresponsável, burlando os ritos tradicionais, negligenciando os impactos no abastecimento de água na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e contrariando a vontade popular que reivindicava a negação da ampliação do empreendimento”.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) divulgou em nota neste domingo (27) que vai realizar um diagnóstico do crime socioambiental de Brumadinho, com vistas à apuração de responsabilidades criminal, civil e trabalhista. Para a instituição, a tragédia representa um dos mais graves eventos de violação às normas de segurança do trabalho na história da mineração no Brasil. No rompimento da barragem de Mariana, em 2015, o MPT investigou e apontou as irregularidades e as deficiências nas medidas de prevenção. As principais medidas não foram aceitas pelas empresas Samarco/Vale, na tentativa de acordo na via administrativa. Entre elas, verificar a estabilidade da mina, condições de higiene e segurança do trabalho e realização de estudos e projetos exigidos pelos órgãos fiscalizadores e pagamento de dano moral coletivo pelos prejuízos. Isso levou o MPT a propor Ação Civil Pública perante a Vara do Trabalho de Ouro Preto, em outubro de 2017, que ainda se encontra pendente de julgamento. Há audiência marcada para o dia 27 de fevereiro e pedidos de liminares, para acelerar o trâmite, não foram atendidos.

Em nota, o Movimento dos Atingidos por Barragens criticou a letargia do judiciário em relação aos 3 anos do rompimento da barragem em Mariana sob gerencia da Samarco, que junto a Vale são controladas pela internacional BHP Billiton: “O poder judiciário até hoje não responsabilizou nenhum dos diretores das empresas envolvidas pelo crime e não assegurou a reparação integral das famílias”. O MAB questiona ainda o desvio da finalidade da empresa privatizada em 1997, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, na exploração de um bem público natural. “É importante destacar que a companhia Vale S.A já foi uma empresa do povo brasileiro, mas nos anos 90 foi privatizada. O que vemos atualmente é uma empresa superpoderosa que atua para o lucro dos acionistas, mas não tem qualquer compromisso com a vida humana e o meio ambiente”, afirma em nota.

Em Porto Alegre, um Ato de Solidariedade às/aos Atingid@s pelo crime da Vale em Brumadinho será realizado nesta quarta-feira (30/01), às 18h30 no SINDIPETRO (Av. Lima e Silva, 818 – Cidade Baixa).

Confira a íntegra da nota emitida pelo MAB:
Mais uma vez a história se repete como tragédia. De um lado a Vale S.A, grande mineradora mundial, e do outro o povo brasileiro, buscando juntar corpos enterrados na lama de empresas criminosas.

Este 25 de janeiro será marcado pelo rompimento de três barragens de rejeito de minério da Mina Córrego do Feijão, que faz parte do Complexo Paraopeba. A barragem de responsabilidade da empresa Vale está localizada no município de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. Estima-se que 14 milhões de m³ de rejeitos foram despejados no Rio Paraopeba, um dos principais afluentes do Rio São Francisco. As autoridades informam que cerca de 150 pessoas estão desaparecidas.

As evidências de mais um crime socioambiental de incalculáveis dimensões nos agridem novamente. O poder público não escutou as comunidades e atuou em favor do poder corporativo para flexibilizar as licenças de ampliação do complexo de barragens em dezembro de 2018.

Nós do MAB entendemos que se trata de um crime continuado pela Vale contra o povo brasileiro. Há três anos do crime da Samarco com o estouro da barragem de Fundão, em Mariana, nenhuma casa foi construída, não sabemos o número de pessoas atingidas, não temos estudo sobre os impactos na saúde, as mulheres não são reconhecidas como atingidas, entre outras tantas violações ambientais e de direitos dos atingidos. O poder judiciário até hoje não responsabilizou nenhum dos diretores das empresas envolvidas pelo crime e não assegurou a reparação integral das famílias. Muito pelo contrário, tem atuado na seletividade punitiva, criminalizando a manifestação das famílias, os movimentos populares e as organizações da sociedade civil.

É importante destacar que a companhia Vale S.A já foi uma empresa do povo brasileiro, mas nos anos 90 foi privatizada. O que vemos atualmente é uma empresa superpoderosa que atua para o lucro dos acionistas, mas não tem qualquer compromisso com a vida humana e o meio ambiente.

Mais uma vez essas grandes empresas e a conivência dos governos demonstram as suas prioridades pelas taxas de lucro em detrimento da qualidade de vida da população. Não há desenvolvimento regional, há destruição de vidas e contaminação dos rios e da natureza.

O MAB convoca o povo brasileiro, pelo espírito de solidariedade e justiça social que nos move, a apoiar as famílias atingidas pelo rompimento da barragem de Brumadinho. Já estamos na região e estamos movendo muitos atingidos de todo o Brasil nessa tarefa de solidariedade e apoio às vítimas, ao lado de tantos outros atingidos e atingidas da bacia do Rio Doce e litoral capixaba que já se voluntariaram ao dever de companheirismo.

Seguimos lutando por justiça em Mariana, em Brumadinho, na bacia do Rio Doce, no litoral capixaba e em defesa do São Francisco.

Exigimos justiça em mais este crime, que a morte de pessoas, de animais, dos rios e do meio ambiente não fiquem mais uma vez impunes.

Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

Vozes à prova de balas: conheça a história da colombina Marta Lopez Guisao

Conforme dados do Sistema de Informações de Agressões a Defensores de Direitos Humanos (SIADDH) da organização Somos Defensores, de 2016 a setembro de 2018 295 defensoras e defensores dos direitos humanos foram assassinados e outros 1046 sofreram ameaças na Colômbia.

Em função disso, a melhor forma de proteger aqueles que estão ameaçados neste momento é os transformando no centro das atenções e compartilhando suas ideias com o mundo, para que todos possam entender que suas lutas transcendem as suas comunidades, porque eles simplesmente têm “vozes a prova de bala”.

Este é o nome da campanha que toma os discursos de 11 defensoras e defensores dos direitos humanos que estão ameaçados na Colômbia. Com trechos de suas falas e ilustrações que remetem a elas e eles, busca-se que as vozes destas mulheres e homens cheguem a todo o mundo para que suas ideias tomem vida e possamos compreender que suas lutas cotidianas beneficiam ao país e ao continente latino-americano como um todo.

Esta iniciativa, realizada pelo programa não governamental de proteção a defensores de direitos humanos “Somos Defensores”, com apoio de artistas e meios de comunicação, mostra a diversidade de defensores de direitos humanos, ressaltando os defensores comunitários, regionais, dos direitos ambientais, de mulheres, de jovens, dos trabalhadores, das comunidades campesinas, indígenas, quilombolas, LGBTQ, entre outros.

A Amigos da Terra Brasil, em parceria com a Radio Mundo Real, somam-se a difusão desta campanha para dar voz aos defensores do campo e da cidade que lutam cotidianamente, superando o medo, a falta de garantias, riscos e agressões iminentes a que estão expostos.

Na sequência, a história de Marta López Guisao, representante de comunidades vulneráveis en Urabá Chocoano e Antioqueño (no noroeste da Colombia), vítima da ação de milícias e do controle do exército na Comuna 13 de Medellín durante a operação Orión. Sua irmã Alicia López foi assassinada em 2017 com seis disparos.

“Meu nome é Marta Lopez Guisao, sou de origem campesina. Meu envolvimento como líder social e defensora dos direitos humanos iniciou ainda muito jovem no município de Apartadó; ali iniciei uma sequência de ações. Fui professora voluntária de 150 meninas e meninos que não tinham este direito garantido. Em 1992, sofri meu primeiro despejo por ameaças e atentados contra minha vida.

Na cidade de Medellín, segui meu trabalho de liderança no bairro em que vivia. Um bairro que se formou a partir da recuperação de terra, e onde, por isso, não havia investimentos do Estado. Nesta comunidades começamos a resolver nossas próprias necessidades e garantir os nossos direitos. Foi assim que construímos o colégio em que fui professora voluntária. Construímos um posto de saúde, escoamento de esgoto, um parque e uma cancha poliesportiva. Infelizmente, fomos surpreendidos pela Operação Mariscal e pela Operação Orión, em que nos declararam como alvo militar, cujo fim era assassinar toda a nossa família, pois todas somos líderes sociais e defensores de direitos humanos.

Saímos de Medellín. Fui trabalhar nas comunidades do sul de Bolívar na zona mineira. Ao sul, por San Pablo, uma incursão do exército junto a milícias sequestraram uma família. Os encontramos em dois acampamentos de milicianos onde nos maltrataram e me apontaram um fuzil. Em Bogotá também sofri perseguições, o que me levou a sair do país por vários anos.

Quando voltei, fui trabalhar com as comunidade em Chocó. Depois de 15 anos longe de Medellin e do bairro em que fomos despejada, assassinaram minha irmã Alicia López Guisao, em 2 de março de 2017. Novamente somos ameaçados e sou obrigada a sair de Chocó. Minha luta seguirá ainda que me persigam”.

Ouça o relato e leia a reportagem original no site da Radio Mundo Real!

Direitos Humanos: entidades pedem reparação a povos indígenas que sofreram violações no RS durante a Ditadura

Entrega de documento ao Ministério Público Federal foi realizada no dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos

Representantes indígenas e um grupo de organizações, no qual a Amigos da Terra participa, protocolaram no dia 10 de dezembro junto à Procuradoria dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal, uma representação apontando as violações sofridas pelos indígenas no Rio Grande do Sul durante à Ditadura Militar no Brasil e pedindo a reparação para essas populações.

O documento foi redigido pela Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP) e apresenta vídeos, fotos e relatos que demonstram como os indígenas foram tratados pelos militares no estado.

“O objetivo da ação é a busca pela reparação desses povos, de violações que tem desdobramentos até hoje, como torturas, tomadas de territórios, territórios esses que ainda buscam demarcação em um tamanho menor do que eram antes, por exemplo”, explica Rodrigo de Medeiros, advogado membro do RENAP.

No interior gaúcho, com a intensificação de exploração da madeira, trabalhos forçados e apropriação de terras contribuíram para expansão do agronegócio. Há ainda os mortos e desaparecidos.

Após o fim do trabalho da Comissão Nacional da Verdade, a própria comissão ressaltou que as violações em relação aos indígenas precisavam de aprofundamento.

Segundo Rodrigo, ações parecidas como essa foram feitas também em Minas Gerais e Roraima, apontando casos que ocorreram em reservas nesses estados.

Retomada Guarani Mbya sai vitoriosa em Maquiné-RS

Após intensa luta do povo guarani, Estado do Rio Grande do Sul desistiu da Ação de Reintegração de Posse da área da Retomada em Maquiné

A nova Tekoá Ka’agüy Pora (Mata Verdadeira) é em definitivo dos Mbyá Guarani. A boa notícia vem após a divulgação, nesta quinta-feira (13), da decisão do Estado do Rio Grande do Sul em extinguir o pedido de Reintegração de Posse realizado anteriormente.

Desde janeiro de 2017, 20 famílias Guarani Mbya retomaram a área da Fepagro (Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária), no Município de Maquiné, litoral Norte do Rio Grande do Sul. Os indígenas estabeleceram uma aldeia no local e reinvidicavam a demarcação da área. Na época, o Cacique André Benites, afirmava que a retomada significa uma luta pelo futuro, pela preservação do espaço e pela perpetuação da cultura Guarani, mas também  uma forma de luta pelo passado, pela memória dos ancestrais que ali viviam até mesmo antes da chegada do europeu e da intervenção do Estado. “A gente não está invadindo, só entramos em território que já era nosso”.

Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo: espaço de arte e inclusão social para as comunidades da zona sul de Porto Alegre

Ponto de Cultura é referência para moradores de comunidades como o Morro Santa Tereza e a Vila Cruzeiro, mas está ameaçado por uma possível reintegração de posse.

É com a mesma força e ancestralidade do tambor afro-gaúcho que o Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, que leva o nome do instrumento musical, tem oportunizado arte e inclusão social para as comunidades da zona sul de Porto Alegre.

Teatro, oficinas de percussão e capoeira são algumas das diversas atividades que movimentam a casa durante toda a semana. Além disso, moradores da região também procuram o local quando precisam de serviços como acesso à internet.

Da poesia à produção de vídeos, os jovens que frequentam o espaço podem ser poetas, artistas, roteiristas, fotógrafos, diretores. Para Cristina Nascimento, o Quilombo do Sopapo é um lugar de oportunidade, de vivenciar experiências e de abraçar diferentes pessoas.

Sobretudo, a arte e a cultura negra do Brasil parecem ser o respiro e a inspiração de resistência necessários para as comunidades da região, em um momento de democracia fragilizada e ataques contra as populações marginalizadas.

Projeto criado em 2004 pela gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura (MinC), os Pontos de Cultura foram idealizados para serem uma ligação efetiva do trabalho social e das manifestações culturais realizados em todo o país, disputando o interesse de jovens em regiões de vulnerabilidade.

Mas, nos últimos anos os Pontos de Cultura tiveram seu orçamento reduzido pelo governo. Muitos editais destinados às entidades foram cancelados, inclusive seguindo determinação contrária à da Advocacia Geral da União (AGU), o que deixou vários grupos culturais do país sem investimentos.

Além disso, o Quilombo do Sopapo sofre com a ameaça de um possível despejo. Está prevista para o mês de dezembro uma reintegração de posse a pedido do Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal (Sintrajufe/RS), já que a atual gestão do sindicato reivindica o terreno cedido pela administração anterior.

A situação, segundo os membros do Ponto de Cultura, é preocupante, mas a programação cultural intensa do local segue normalmente. Em novembro, foi realizada a posse do atual Conselho Gestor Comunitário, com representantes dos bairros e de movimentos sociais.

“Eu nunca pensei que um dia ia fazer teatro na minha vida. Esse espaço é tão rico que não podemos deixar desaparecer”, diz Beatriz Rodrigues, integrante do Quilombo do Sopapo que participa das oficinas de percussão e também realiza um trabalho com plantas medicinais de conhecimento popular no local.

Conheça mais sobre o trabalho de Beatriz no vídeo abaixo:

 

Presidente do Asilo Padre Cacique faz ameaças aos movimentos sociais em programa da Rádio Guaíba

Amigos da Terra Brasil foi citada como uma das responsáveis por “mobilizar e defender criminosos” durante a tentativa de despejo do Quilombo Lemos. Programa coordenado por Rogério Mendelski não esclareceu aos ouvintes como se dá o processo de reconhecimento de um quilombo urbano e não retornou aos nossos contatos de pedido de direito de resposta.

Em entrevista ao vivo realizada nesta segunda-feira (12/11) para a Rádio Guaíba, o senhor presidente do Asilo Padre Cacique, Edson Brozoza, fez ameaças contra os movimentos sociais que estão acompanhando as famílias do Quilombo Lemos. Após um pedido de reintegração de posse que teve a visita de um oficial de justiça e do Batalhão de Choque da Brigada Militar na última quarta-feira (7/11), a tentativa de reintegração apresentou uma série de irregularidades e foi suspensa pela Justiça.

Durante o programa, o entrevistado se referiu à Amigos da Terra e também à Frente Quilombola RS como defensores de criminosos e disse “que derrubaria pelo menos uns dez”. Além disso, alegou que a enfermaria do asilo estaria sendo perturbada pelo som de pagode e funk.

De maneira preconceituosa e sem nenhum conhecimento sobre a definição de quilombo urbano, se dirigiu aos moradores da comunidade como sendo  “apenas flanelinhas e que nada tinham a ver com quilombo, que é esconderijo de escravos fugidos”. Ele ainda acusou as organizações de terem fraudado o documento da Fundação Palmares que certifica o Lemos como quilombo urbano.

Todas as ameaças e declarações racistas aparentaram ter o aval dos apresentadores do programa Bom Dia, Rogério Mendelski e Voltaire Porto, já que não foram questionadas e apenas uma das partes envolvidas no caso teve espaço exclusivo para se manifestar.

Atualmente, os quilombos urbanos têm em comum a ancestralidade negra e são formados por grupos que viviam ao redor de grandes cidades, que foram englobados pelo crescimento urbano dos municípios.  A opressão histórica e a resistência atual frente à especulação imobiliária e projetos de desenvolvimento urbano que implicam na redução do território ou no deslocamento desses grupos étnicos também são fatores de unidade e reivindicações entre estas populações.

A Amigos da Terra é uma organização ambiental brasileira, que luta pela promoção de políticas públicas para a preservação do meio ambiente, bem como das comunidades tradicionais e para solução dos conflitos de território.
Nossa organização reafirma seu compromisso na defesa dos direitos humanos, prestando o apoio necessário ao Quilombo Lemos, para que nenhum direito seja violado.
Por entendermos a importância da Rádio Guaíba e o compromisso dela com seus ouvintes para que informações equivocadas não sejam pautadas como verdade,  por entendermos que o jornalismo se propõe a dar espaço para todas as partes, e por se tratar de uma rádio de concessão pública, solicitamos por telefone e por email um direito de resposta à produção do programa e até o momento não tivemos retorno.