“Se essas árvores geneticamente modificadas são liberadas no meio ambiente você não pode voltar atrás”, afirma Anne Petermann

A Amigos da Terra Brasil entrevistou a coordenadora do programa global Stop Engineered Trees, Anne Petermann. A pesquisadora explica a situação atual das pesquisas e introdução na natureza de árvores geneticamente modificadas, quais os resultados desta ação e o que pretendem as empresas que lideram este movimento comercial. A entrevista foi realizada a partir do debate “Ameaças e Impactos dos Monocultivos de Árvores e das Árvores Transgênicas”, realizado em parceria com a WRM (World Rainforest Movement) no Clube de Cultura em Porto Alegre no ínicio de abril.

Anne destaca que uma vez liberadas no meio ambiente os reflexos estão além do que as pesquisas são capazes de prever: “por exemplo, as árvores que foram modificadas para matar insetos: o pesticida na árvore está em cada uma das células da árvore, então não apenas na madeira, mas nas folhas, no pólen, então não só os insetos-alvo do pesticida serão mortos, mas também são impactados os insetos benéficos, como abelhas e borboletas, outros polinizadores, ou os insetos que comem essas pragas também serão afetados, ou os pássaros… os impactos continuam cadeia alimentar acima e é desconhecido quão longe eles vão”.  Ela lembra ainda que o prazo de desenvolvimento das árvores é de anos, diferente de culturas como milho e soja em que o ciclo é de meses: “elas também podem ser prejudicadas por isso e essas são todas as coisas que não foram estudadas o suficiente para saber quais serão os impactos de longo, ou mesmo de curto prazo”.

Acompanhe a íntegra da entrevista:

Amigos da Terra Brasil – Você pode explicar o que são árvores transgênicas?

Anne Petermann – A questão com as árvores transgênicas é que elas são diferentes de árvores cultiváveis “normais”. Essas árvores foram modificadas em suas células, em seu DNA, para fazer coisas que elas nunca fariam na natureza. Elas estão sendo modificadas para crescer de maneiras que as árvores, na natureza, não podem crescer, para matar insetos, para tolerar serem pulverizadas com químicos que as matariam de outra maneira, para ter a madeira modificada, a madeira produzida pela árvore é diferente, ou para crescer muito, muito rápido. Então, é isso que as árvores transgênicas são. Porque elas nunca existiram na natureza. Elas têm impactos que nós não podemos sequer entender, já que nós não sabemos como essas árvores se comportariam em um ecossistema florestal, ou em qualquer ecossistema, com os solos, com a vida selvagem, com os pássaros e também com as pessoas que vivem no entorno.

ATB – Quais são os impactos ao meio ambiente e às comunidades que estão ao redor dessas plantações massivas?

AP – O impacto da árvore no meio ambiente depende de como ela foi geneticamente modificada. Então, uma árvore que foi geneticamente modificada para resistir a herbicidas tóxicos, por exemplo, resultará em muito mais herbicida sendo pulverizado nas plantações. Isso significa que haverá maior poluição da água, maior poluição dos solos, mais pesticidas contaminando comunidades locais e todos os impactos muito ruins que acontecem por causa dos agrotóxicos. Ou, por exemplo, as árvores que foram modificadas para matar insetos: o pesticida na árvore está em cada uma das células da árvore, então não apenas na madeira, mas nas folhas, no pólen, então não só os insetos-alvo do pesticida serão mortos, mas também são impactados os insetos benéficos, como abelhas e borboletas, outros polinizadores, ou os insetos que comem essas pragas também serão afetados, ou os pássaros… os impactos continuam cadeia alimentar acima e é desconhecido quão longe eles vão. Mas também podem impactar as comunidades que vivem no entorno, quando elas inalam pólen, este pólen contém pesticida. Elas também podem ser prejudicadas por isso e essas são todas as coisas que não foram estudadas o suficiente para saber quais serão os impactos de longo, ou mesmo de curto prazo. Então, isso é um outro exemplo, eles não querem saber as coisas ruins, logo eles [as empresas] não procuram por isso.

ATB – Depois que essas árvores forem liberadas e todos esses impactos negativos se apresentarem, o que pode ser feito?

AP – Se essas árvores são liberadas no meio ambiente em larga escala, o problema é que você não pode voltar atrás, você não pode dizer, sabe, “isso é uma má ideia, vamos recolher essas árvores de volta”, porque elas foram liberadas. Então, se lhes foi permitido estar no meio ambiente, elas podem dispersar seu pólen, suas sementes, ou, em caso de árvores de eucalipto, elas podem brotar de novo dos tocos, se você as cortar, então elas crescem e não há como voltar atrás. Então é por isso que nós estamos dizendo que elas devem ser barradas antes de serem postas no meio ambiente, porque se elas forem liberadas em escala comercial, não há meios de impedir que elas se espalhem.

ATB – Como podemos diferenciar uma árvore transgênica de uma árvore natural?

AP – O problema de identificar quando uma árvore foi modificada em relação a uma árvore não modificada é que é muito difícil, porque elas parecem exatamente a mesma árvore. Se for uma árvore modificada para tolerar herbicidas, você pode diferenciá-la ao pulverizá-la com um químico e ela não morrer. Mas para a maioria das árvores a única maneira de realmente saber é fazendo um teste, um teste genético, para verificar se ela foi modificada – e isso não é algo fácil. Novamente, esse é o motivo para não querermos essas árvores liberadas de maneira alguma: porque uma vez que elas estão soltas no ambiente, é muito difícil de descobrir para onde elas foram.

ATB – Então, o que significam os termos “modificada” e”transgênica”?

AP – Basicamente, eles significam a mesma coisa. Bem, tem algumas tecnologias de engenharia genética que não são transgênicas, elas são… é a mesma tecnologia, mas em vez de usar material genético de um organismo diferente, eles usam material genético da mesma espécie que estão modificando. Então, ainda é engenharia genética, eles ainda estão invadindo a célula com essa tecnologia muito destrutiva, mas não é transgênico.

ATB – Como está a situação política sobre as árvores genéticas ao redor do mundo?

AP – Com respeito à situação política ao redor do mundo sobre árvores geneticamente modificadas, existe uma decisão tomada em 2008 pela Conveção de Diversidade Biológica, uma agência da ONU, que árvores geneticamente modificadas (GM) não deveriam ser liberadas sem total entendimento sobre seus impactos ambientais, que a precaução deveria ser considerada. Essa decisão nunca foi alterada. Infelizmente, há países, como os Estados Unidos, que nunca assinaram essa convenção, então eles não se importam. E há outros países, como o Brasil, que dizem “ah, nós não nos importamos, então vamos fazer de qualquer jeito”. Então, isso é um problema. Mas há também organizações como o Conselho de Gestão Florestal (FSC, em inglês) e o Grupo Europeu para Certificação de Florestas – e um outro grupo similar nos Estados Unidos – que proibem árvores geneticamente modificadas e as companhias que as produzem de serem certificadas como sustentáveis, o que torna difícil encontrar mercados para vender essas árvores. Essa, então, é outra forma de pressão contra árvores GM e, é claro, há pessoas por todo o mundo que não querem essas árvores. Enquanto isso, a indústria florestal ainda está tentando convencer as pessoas de que essas árvores são uma boa ideia, que elas ajudarão o meio ambiente, então a campanha de desinformação está ficando mais forte e o nosso trabalho de educar as pessoas sobre seus perigos tem que se tornar ainda mais forte.

ATB – Se houver alguma informação que nós não abordamos e você acha importante compartilhar…

AP – Acho que a única coisa que eu poderia acrescentar é que a situação no Brasil é principalmente com árvores de eucalipto, mas em outros países eles estão fazendo engenharia genética com outras árvores. Na China, eles liberaram uma árvore geneticamente modificada chamada Poplar, outra árvore para cultivo industrial; nos Estados Unidos eles também modificaram geneticamente pinheiros – que eu acho que fizeram também no Brasil. Mas nos Estados Unidos estão modificando também uma árvore nativa: ela é conhecida como Chestnut [tipo de Castanheira], que foi devastada por uma doença, matando quase todas as árvores e essa árvore seria a primeira árvore geneticamente modificada colocado no meio ambiente com a intenção de se espalhar, então eles queriam que essa árvore fosse colocada na floresta e se disseminasse amplamente. Isso é algo sem precedentes, algo muito perigoso, por tudo sobre o que conversamos até agora, mas eles realmente quiseram que isso acontecesse, não é que foi um acidente: houve intenção. Então, eles estão se movendo em algumas direções com as árvores GM para dizer que nós podemos usá-las para restauração florestal, para proteção de florestas, e todas essas mentiras que são realmente importantes para nós nos opormos, porque eles só querem dizer que podem salvar o meio ambiente com essas árvores para poder justificar o uso de Eucalipto, Pinheiro e Poplar geneticamente modificados em imensas plantações industriais.

A Amigos da Terra Brasil realizou uma série de vídeos desta entrevista e dos impactos do monocultivo de árvores, acompanhe abaixo:

DROPS #1 O que são arvores transgênicas?

DROPS #2 Quais os impactos da plantação de árvores transgênicas?

DROPS #3 Como identificar árvores transgênicas?

DROPS #4 Qual o contexto global de liberação de árvores transgênicas?

Impactos do Monocultivo de Árvores:

A Jornada Continental pela Democracia e contra o Neoliberalismo condena a intenção de golpe contra a democracia e soberania da Venezuela

Novamente forças golpistas tentam destruir a democracia e a paz na Venezuela. Em uma operação midiática e militar, o autoproclamado presidente Juan Guaidó e, o político condenado por terrorismo, Leopoldo López pretenderam insurgir-se contra o governo legítimo de Nicolás Maduro e provocar uma desestabilização ainda maior na Venezuela.

Após ter gerado ações durante meses para destruir a economia, sabotar o sistema elétrico e aprofundar as já difíceis condições da população venezuelana, a oposição golpista agora recorre a violência em uma ação desesperada para provocar uma reação dos militares que se mantêm fiéis a Constituição e a Democracia.

Com a participação de alguns militares, pretenderam gerar um confronto ao tentar tomar uma base militar ao leste da Capital Caracas. A rápida intervenção de tropas leais, a própria incapacidade e o escaço respaldo popular dos golpistas frustraram esta nova tentativa de insurreição.

Denunciamos o papel dos governos do chamado ‘Grupo de Lima’, que continuam alimentando a agressão e a ingerência do imperialismo estadunidense com o povo da Venezuela. É tarefa das organizações sociais, partidos políticos de esquerda e setores democráticos denunciar estes governos em seus paises e exigir deles uma postura a favor da paz e do entendimento entre os venezuelanos.

A Jornada Continental pela Democracia e contra o Neoliberalismo, instância que agrupa organizações de trabalhadores, campesinas/os, feministas, ambientalistas e diversos setores sociais, expressa sua solidariedade ao povo venezuelano e saudamos a força que continuam demonstrando frente as intenções de destruição de sua soberania.

Encorajamos aos movimentos sociais, organizações e partidos políticos a redobrar a solidariedade com o povo da Venezuela e suas autoridades legítimas e constitucionais.

ATALC denuncia e repudia assassinato do defensor dos povos indígenas Sergio Rojas na Costa Rica

Amigos da Terra América Latina e Caribe (ATALC) denuncia e repudia o assassinato de Sergio Rojas — indígena costarriquenho defensor dos direitos dos povos originários e defensor do território Bribri de Salitre ao sul da Costa Rica. Durante sua vida foi um incansável lutador pela autonomia indígena, enfrentando os grileiros de terras de suas comunidades.

Na última segunda (18) Sergio foi emboscado em sua casa, localizada na comunidade de Yeri, onde foi baleado 15 vezes. Horas antes de seus assassinato, membros da comunidade e Sérgio denunciaram às autoridades locais o uso de terras por pessoas não indígenas em seus territórios e também as ameaças constantes sofriadas há anos sem resposta efetiva por parte dos investigadores costarriquenhos. Este fato nefasto ocorre especialmente após medidas cautelares serem entregues pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para Salitre, comovendo aos povos indígenas e aos movimentos sociais do país caribenho e de toda América Latina.

Como organização ambientalista comprometida na busca por justiça ambiental, social, econômica e de gênero, e que trabalha pelo direito dos povos e das/os defensoras/os dos territórios, extendemos nossa solidariedade ao povo costarriquenho, às comunidades indígenas e à família de Sergio Rojas.

Fazemos também um chamado ao governo da Costa Rica e as autoridades e instituições competentes para que se agilizem nas investigações que darão conta dos responsáveis diretos e mandantes deste infame assassinato. Acreditamos ser fundamental que se entreguem explicações claras de porquê povos indígenas e seus representantes, como é o caso de Sergio, que se encontram expostos a violência permanente por sua luta justa e na defesa de direitos, não contam com proteção especial, necessidade amparada pelas medidas cautelares entregues pela CIDH.

Consideramos que apenas mediante a luta contra a impunidade e o cumprimento estrito do direito e a autonomia dos povos indígenas na Costa Rica, e ainda a partir da ação efetiva do Estado é possível evitar que casos como o de Sergio se repitam, e as permanentes ações de exterminio dos povos contra seu direito à autonomia e aos seus territórios.

À comunidade internacional, às organizações e aos movimentos sociais da América Latina e do Caribe e de diferentes partes do mundo: chamamos a denunciar o assassinato de Sergio Rojas. Mantenhamos o alerta permanente frentes as injustiças que seguem acompanhadas da impunidade contra nossos povos.

 

3 anos do assassinato de Berta Cáceres: a sua luta se multiplicou

Da RMR

No dia 2 de março completaram três anos do assassinato da hondurenha Berta Cáceres. Um feminicídio político que tentou silenciar as lutas que esta defensora dos direitos dos povos encabeçava junto aos povos originários Lenca e ao Conselho de Organizações Indígenas e Populares de Honduras (COPINH). Com este crime quiseram impedir a luta contra a instalação de projetos extrativistas, como a construção da hidrelétrica de Agua Zarca. Tentaram frear a organização coletiva deste país centro-americano, mas não conseguiram: Berta se multiplicou.

A educadora popular argentina Claudia Korol apresenta em seu livro “As revoluções de Berta” [em livre tradução] reflexões, a partir de conversas entre ela e Berta, sobre a realidade latino-americana sobre o golpe de Estado de Honduras, o governo de Manuel Zelaya – deposto em 2009 -, a reconstrução da Frente Nacional de Resistência Popular, a busca feminista para resolução de conflitos, a comunicação popular como parte da luta política, entre outros assuntos.

Lê-lo é ouvir a defensora dos direitos humanos, das mulheres, dos povos, dos territórios e dos rios em primeira mão, sem intermediários. Na sequência, alguns trechos da entrevista realizada com Claudia Korol pela Radio Mundo Real do Uruguai.

RMR – Antes se podia conhecer sua imagem em distintos âmbitos quando viva, com o seu assassinato sua figura se multiplicou. Também muito presa a sua luta ambiental, este livro trás outras dimensões que ela conjugava todo o tempo em sua luta.
Claudia – Sim, ela era uma mulher revolucionária que queria transformar profundamente, não apenas seu país, a América Central, ou nosso continente, mas o que buscava era revolucionar o mundo. Ainda que isso pareça demais, era também uma realidade que estamos agora vivendo muito dolorosamente: não compreender que quando não aceitam em profundidade os processos políticos populares, a possibilidade que se volte para trás, que se reverta e que se desalojem os povos de seus espaços é muito grande. Berta alertou muitíssimo sobre isso, creio que quem tenha acesso ao livro verá as intervenções de Berta quando se deu o debate do marco da Frente Nacional de Resistência Popular de Honduras sobre as possibilidades existentes nesta democracia tão restringida e fraudulenta de se conseguir uma mudança, como a que havia se sonhado em uma refundação de Honduras, a refundação de um outro país. É triste pensar que muito do que estamos vendo hoje dá razão a uma voz que não foi suficientemente ouvida em seu tempo. Nem ao menos quando falava em golpe de Estado, nem ao menos quando dizia que a volta de Honduras a OEA (Organização dos Estados Americanos) acordado por vários dos governos chamados progressistas iria complicar a luta do povo hondurenho. Para mim, é importante dizer que o que fica deste pensamento não é para dizer: “Berta tinha razão”. Mas, bem, Berta observou a realidade em profundidade, com a capacidade que possuía. Essa situação nos advertiu sobre muitos riscos. Agora é hora de estudar seu pensamento, em que se fundava. De sair destas lógicas politiqueiras. Às vezes, também as chamamos eleitoreiras, que significa o mesmo que dizer que é mais que só ganhar ou perder um voto e poder pensar realmente como fazemos para realizar transformações revolucionárias verdadeiras.

RMR – Quando lhe fizemos este convite em Honduras, quase de realismo mágico como você disse. “Vem a esperança, venha a utopia”. O que você viu aí quando visitou?
Claudia – Isto foi em março de 2010, fazia alguns meses depois do golpe de Estado quando já se organizaram o segundo encontro pela refundação de Honduras. E precisamente o que vi foi um povo deliberando em meio ao golpe, não sobre como resistir somente, nem principalmente, se haveria resistência, se se colocaria em jogo a vida de companheiros e companheiras. Se havia de dizer: por quê? Por qual sonho se estava caminhando, por qual sonho se estava colocando o corpo. Por que tipo de país, por que tipo de mundo, por que tipo de revolução se queria lutar. Não falando em geral de revolução, assim como um conceito propagandístico. E sim dizer: bom, o que queremos que aconteça com os bens comuns, com a água, com a terra, com as sementes? Com as relações entre homens e mulheres, com as pluralidades sexuais, com as forças armadas, com as forças repressivas do Estado? Poder olhar o conjunto das relações sociais como se constrói a governabilidade a partir da opressão. Que é o que estávamos propondo como organizações populares.

Abaixo a íntegra da entrevista em espanhol:

Vozes à prova de bala: conheça a história do ativista Guilherme Pérez

Conforme dados do Sistema de Informações de Agressões a Defensores de Direitos Humanos (SIADDH) da organização Somos Defensores, de 2016 a setembro de 2018 295 defensoras e defensores dos direitos humanos foram assassinados e outros 1046 sofreram ameaças na Colômbia.

Em função disso, a melhor forma de proteger aqueles que estão ameaçados neste momento é os transformando no centro das atenções e compartilhando suas ideias com o mundo, para que todos possam entender que suas lutas transcendem as suas comunidades, porque eles simplesmente têm “vozes à prova de bala”.

Este é o nome da campanha que toma os discursos de 11 defensoras e defensores dos direitos humanos que estão ameaçados na Colômbia. Com trechos de suas falas e ilustrações que remetem a elas e eles, busca-se que as vozes destas mulheres e homens cheguem a todo o mundo para que suas ideias tomem vida e possamos compreender que suas lutas cotidianas beneficiam ao país e ao continente latino-americano como um todo.

Esta iniciativa, realizada pelo programa não governamental de proteção a defensores de direitos humanos “Somos Defensores”, com apoio de artistas e meios de comunicação, mostra a diversidade de defensores de direitos humanos, ressaltando os defensores comunitários, regionais, dos direitos ambientais, de mulheres, de jovens, dos trabalhadores, das comunidades campesinas, indígenas, quilombolas, LGBTQ, entre outros.

A Amigos da Terra Brasil, em parceria com a Rádio Mundo Real, somam-se a difusão desta campanha para dar voz aos defensores do campo e da cidade que lutam cotidianamente, superando o medo, a falta de garantias, riscos e agressões iminentes a que estão expostos. Hoje conhecemos a história de Guilherme Pérez.

“Sou o representante da Associação de Campesinos e Comunidades Sem Terra da província de César. Desde então, viemos trabalhando pela defesa dos direitos campesinos, a restituição de terras e a defesa do território.

Desde o ano 2015 venho denunciando as capturas ilegais de líderes campesinos da serra de Perija (no norte do país) por parte da fiscalía (organismo independiente relativo ao poder judiciário da Colombia) e do exército com o plano de enfraquecer a luta pela defesa do território.

Também venho acompanhando as comunidades do corredor de mineração da província de César que se opõe a expansão da exploração de carbono, os danos ambientais e a desapropriação de terra por parte das multinacionais DRUMMOND e PRODECO.

Acompanhamos as assembleias campesinas pela restituição e a qualidade de vida em sua luta para que les restituiam suas terras desapropriadas por milicias e hoje dadas a concessão minera.

Recebi ameaças por diferentes meios de ligações telefônicas, emails em nome da organização Autodefensas Gaitanistas da Colômbia. Enviaram-me panfletos [com ameaças] para minha casa. Em várias ocasiões sujeitos armados encapuzados em motocicletas me entimidaram me acusando de guerrilheiro ‘filho da puta’ e que iriam me assassinar. Além disso fui perseguido em meus deslocamentos e também as minhas filhas. Também recebi ameaças de judicialização e intimidação da institucionalidade”.

Ouça o áudio original aqui.

 

Moradores do Cantagalo se mobilizam contra instalação de lixão na região

Moradores e comunidades indígenas da região do Cantagalo estão mobilizados contra um projeto da Prefeitura Municipal de Viamão que pretende instalar um aterro sanitário na rua Acrísio Martins Prates, na fazenda Montes Verdes. De acordo com os moradores, a comunidade não foi consultada pela prefeitura. A atividade do lixão é de grande porte e teria alto potencial poluidor.

Desde o final de 2018 há um processo na Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) para a autorização do manejo da fauna silvestre.

Nesta segunda-feira (04/02) um grupo de moradores e representantes indígenas realizaram uma manifestação contra a instalação do lixão, que segundo eles, poderá trazer problemas de saúde, ambientais e sócio-econômicos. Produtores orgânicos da região também temem pela contaminação da água e do solo.

Brumadinho (MG): o crime se repete

Três anos após o rompimento da barragem da mineradora Samarco que arrasou a cidade de Mariana, em novembro de 2015, o estado de Minas Gerais voltou a viver, na sexta-feira (25), uma nova tragédia envolvendo a mineração. Desta vez, uma barragem da Vale rompeu, inundando de lama grande parte do município de Brumadinho. Estima-se que 14 milhões de m³ de rejeitos foram despejados no Rio Paraopeba, um dos principais afluentes do Rio São Francisco. Cerca de 292 pessoas estão desaparecidas e ao menos 60 mortes já foram confirmadas pelo Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. Os rejeitos atingiram a área administrativa da companhia e parte da comunidade da Vila Ferteco. O governo federal montou gabinete de crise para apurar as causas do rompimento e também para orientar os resgates. O conselho é composto por dez ministérios: Casa Civil, Defesa, Cidadania, Saúde, Minas e Energia, Meio Ambiente, Desenvolvimento Regional, Direitos Humanos, GSI e AGU, mas não prevê a participação dos atingidos e atingidas.

“Sabemos que é um comitê interministerial, mas precisamos do IBAMA, da ANA, o INCRA, o Ministério da Agricultura, a Agência Nacional de Mineração, o Instituto Chico Mendes e a Funai participando pelo governo. O Ministério da Agricultura nem foi incluído no conselho interministerial. Esses órgãos que citei, sequer são citados no decreto” , afirma Joceli Andrioli, da coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). O Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) emitiu nota ainda no dia 25 criticando o licenciamento ambiental que pela segunda vez falhou na fiscalização no setor: “Em dezembro de 2018, a Vale obteve as licenças ambientais para ampliação da Mina do Córrego do Feijão de forma acelerada, desrespeitando os trâmites normais. O processo de obtenção das licenças ambientais foi realizado de maneira irresponsável, burlando os ritos tradicionais, negligenciando os impactos no abastecimento de água na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e contrariando a vontade popular que reivindicava a negação da ampliação do empreendimento”.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) divulgou em nota neste domingo (27) que vai realizar um diagnóstico do crime socioambiental de Brumadinho, com vistas à apuração de responsabilidades criminal, civil e trabalhista. Para a instituição, a tragédia representa um dos mais graves eventos de violação às normas de segurança do trabalho na história da mineração no Brasil. No rompimento da barragem de Mariana, em 2015, o MPT investigou e apontou as irregularidades e as deficiências nas medidas de prevenção. As principais medidas não foram aceitas pelas empresas Samarco/Vale, na tentativa de acordo na via administrativa. Entre elas, verificar a estabilidade da mina, condições de higiene e segurança do trabalho e realização de estudos e projetos exigidos pelos órgãos fiscalizadores e pagamento de dano moral coletivo pelos prejuízos. Isso levou o MPT a propor Ação Civil Pública perante a Vara do Trabalho de Ouro Preto, em outubro de 2017, que ainda se encontra pendente de julgamento. Há audiência marcada para o dia 27 de fevereiro e pedidos de liminares, para acelerar o trâmite, não foram atendidos.

Em nota, o Movimento dos Atingidos por Barragens criticou a letargia do judiciário em relação aos 3 anos do rompimento da barragem em Mariana sob gerencia da Samarco, que junto a Vale são controladas pela internacional BHP Billiton: “O poder judiciário até hoje não responsabilizou nenhum dos diretores das empresas envolvidas pelo crime e não assegurou a reparação integral das famílias”. O MAB questiona ainda o desvio da finalidade da empresa privatizada em 1997, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, na exploração de um bem público natural. “É importante destacar que a companhia Vale S.A já foi uma empresa do povo brasileiro, mas nos anos 90 foi privatizada. O que vemos atualmente é uma empresa superpoderosa que atua para o lucro dos acionistas, mas não tem qualquer compromisso com a vida humana e o meio ambiente”, afirma em nota.

Em Porto Alegre, um Ato de Solidariedade às/aos Atingid@s pelo crime da Vale em Brumadinho será realizado nesta quarta-feira (30/01), às 18h30 no SINDIPETRO (Av. Lima e Silva, 818 – Cidade Baixa).

Confira a íntegra da nota emitida pelo MAB:
Mais uma vez a história se repete como tragédia. De um lado a Vale S.A, grande mineradora mundial, e do outro o povo brasileiro, buscando juntar corpos enterrados na lama de empresas criminosas.

Este 25 de janeiro será marcado pelo rompimento de três barragens de rejeito de minério da Mina Córrego do Feijão, que faz parte do Complexo Paraopeba. A barragem de responsabilidade da empresa Vale está localizada no município de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. Estima-se que 14 milhões de m³ de rejeitos foram despejados no Rio Paraopeba, um dos principais afluentes do Rio São Francisco. As autoridades informam que cerca de 150 pessoas estão desaparecidas.

As evidências de mais um crime socioambiental de incalculáveis dimensões nos agridem novamente. O poder público não escutou as comunidades e atuou em favor do poder corporativo para flexibilizar as licenças de ampliação do complexo de barragens em dezembro de 2018.

Nós do MAB entendemos que se trata de um crime continuado pela Vale contra o povo brasileiro. Há três anos do crime da Samarco com o estouro da barragem de Fundão, em Mariana, nenhuma casa foi construída, não sabemos o número de pessoas atingidas, não temos estudo sobre os impactos na saúde, as mulheres não são reconhecidas como atingidas, entre outras tantas violações ambientais e de direitos dos atingidos. O poder judiciário até hoje não responsabilizou nenhum dos diretores das empresas envolvidas pelo crime e não assegurou a reparação integral das famílias. Muito pelo contrário, tem atuado na seletividade punitiva, criminalizando a manifestação das famílias, os movimentos populares e as organizações da sociedade civil.

É importante destacar que a companhia Vale S.A já foi uma empresa do povo brasileiro, mas nos anos 90 foi privatizada. O que vemos atualmente é uma empresa superpoderosa que atua para o lucro dos acionistas, mas não tem qualquer compromisso com a vida humana e o meio ambiente.

Mais uma vez essas grandes empresas e a conivência dos governos demonstram as suas prioridades pelas taxas de lucro em detrimento da qualidade de vida da população. Não há desenvolvimento regional, há destruição de vidas e contaminação dos rios e da natureza.

O MAB convoca o povo brasileiro, pelo espírito de solidariedade e justiça social que nos move, a apoiar as famílias atingidas pelo rompimento da barragem de Brumadinho. Já estamos na região e estamos movendo muitos atingidos de todo o Brasil nessa tarefa de solidariedade e apoio às vítimas, ao lado de tantos outros atingidos e atingidas da bacia do Rio Doce e litoral capixaba que já se voluntariaram ao dever de companheirismo.

Seguimos lutando por justiça em Mariana, em Brumadinho, na bacia do Rio Doce, no litoral capixaba e em defesa do São Francisco.

Exigimos justiça em mais este crime, que a morte de pessoas, de animais, dos rios e do meio ambiente não fiquem mais uma vez impunes.

Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

Vozes à prova de balas: conheça a história da colombina Marta Lopez Guisao

Conforme dados do Sistema de Informações de Agressões a Defensores de Direitos Humanos (SIADDH) da organização Somos Defensores, de 2016 a setembro de 2018 295 defensoras e defensores dos direitos humanos foram assassinados e outros 1046 sofreram ameaças na Colômbia.

Em função disso, a melhor forma de proteger aqueles que estão ameaçados neste momento é os transformando no centro das atenções e compartilhando suas ideias com o mundo, para que todos possam entender que suas lutas transcendem as suas comunidades, porque eles simplesmente têm “vozes a prova de bala”.

Este é o nome da campanha que toma os discursos de 11 defensoras e defensores dos direitos humanos que estão ameaçados na Colômbia. Com trechos de suas falas e ilustrações que remetem a elas e eles, busca-se que as vozes destas mulheres e homens cheguem a todo o mundo para que suas ideias tomem vida e possamos compreender que suas lutas cotidianas beneficiam ao país e ao continente latino-americano como um todo.

Esta iniciativa, realizada pelo programa não governamental de proteção a defensores de direitos humanos “Somos Defensores”, com apoio de artistas e meios de comunicação, mostra a diversidade de defensores de direitos humanos, ressaltando os defensores comunitários, regionais, dos direitos ambientais, de mulheres, de jovens, dos trabalhadores, das comunidades campesinas, indígenas, quilombolas, LGBTQ, entre outros.

A Amigos da Terra Brasil, em parceria com a Radio Mundo Real, somam-se a difusão desta campanha para dar voz aos defensores do campo e da cidade que lutam cotidianamente, superando o medo, a falta de garantias, riscos e agressões iminentes a que estão expostos.

Na sequência, a história de Marta López Guisao, representante de comunidades vulneráveis en Urabá Chocoano e Antioqueño (no noroeste da Colombia), vítima da ação de milícias e do controle do exército na Comuna 13 de Medellín durante a operação Orión. Sua irmã Alicia López foi assassinada em 2017 com seis disparos.

“Meu nome é Marta Lopez Guisao, sou de origem campesina. Meu envolvimento como líder social e defensora dos direitos humanos iniciou ainda muito jovem no município de Apartadó; ali iniciei uma sequência de ações. Fui professora voluntária de 150 meninas e meninos que não tinham este direito garantido. Em 1992, sofri meu primeiro despejo por ameaças e atentados contra minha vida.

Na cidade de Medellín, segui meu trabalho de liderança no bairro em que vivia. Um bairro que se formou a partir da recuperação de terra, e onde, por isso, não havia investimentos do Estado. Nesta comunidades começamos a resolver nossas próprias necessidades e garantir os nossos direitos. Foi assim que construímos o colégio em que fui professora voluntária. Construímos um posto de saúde, escoamento de esgoto, um parque e uma cancha poliesportiva. Infelizmente, fomos surpreendidos pela Operação Mariscal e pela Operação Orión, em que nos declararam como alvo militar, cujo fim era assassinar toda a nossa família, pois todas somos líderes sociais e defensores de direitos humanos.

Saímos de Medellín. Fui trabalhar nas comunidades do sul de Bolívar na zona mineira. Ao sul, por San Pablo, uma incursão do exército junto a milícias sequestraram uma família. Os encontramos em dois acampamentos de milicianos onde nos maltrataram e me apontaram um fuzil. Em Bogotá também sofri perseguições, o que me levou a sair do país por vários anos.

Quando voltei, fui trabalhar com as comunidade em Chocó. Depois de 15 anos longe de Medellin e do bairro em que fomos despejada, assassinaram minha irmã Alicia López Guisao, em 2 de março de 2017. Novamente somos ameaçados e sou obrigada a sair de Chocó. Minha luta seguirá ainda que me persigam”.

Ouça o relato e leia a reportagem original no site da Radio Mundo Real!

Direitos Humanos: entidades pedem reparação a povos indígenas que sofreram violações no RS durante a Ditadura

Entrega de documento ao Ministério Público Federal foi realizada no dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos

Representantes indígenas e um grupo de organizações, no qual a Amigos da Terra participa, protocolaram no dia 10 de dezembro junto à Procuradoria dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal, uma representação apontando as violações sofridas pelos indígenas no Rio Grande do Sul durante à Ditadura Militar no Brasil e pedindo a reparação para essas populações.

O documento foi redigido pela Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP) e apresenta vídeos, fotos e relatos que demonstram como os indígenas foram tratados pelos militares no estado.

“O objetivo da ação é a busca pela reparação desses povos, de violações que tem desdobramentos até hoje, como torturas, tomadas de territórios, territórios esses que ainda buscam demarcação em um tamanho menor do que eram antes, por exemplo”, explica Rodrigo de Medeiros, advogado membro do RENAP.

No interior gaúcho, com a intensificação de exploração da madeira, trabalhos forçados e apropriação de terras contribuíram para expansão do agronegócio. Há ainda os mortos e desaparecidos.

Após o fim do trabalho da Comissão Nacional da Verdade, a própria comissão ressaltou que as violações em relação aos indígenas precisavam de aprofundamento.

Segundo Rodrigo, ações parecidas como essa foram feitas também em Minas Gerais e Roraima, apontando casos que ocorreram em reservas nesses estados.

Retomada Guarani Mbya sai vitoriosa em Maquiné-RS

Após intensa luta do povo guarani, Estado do Rio Grande do Sul desistiu da Ação de Reintegração de Posse da área da Retomada em Maquiné

A nova Tekoá Ka’agüy Pora (Mata Verdadeira) é em definitivo dos Mbyá Guarani. A boa notícia vem após a divulgação, nesta quinta-feira (13), da decisão do Estado do Rio Grande do Sul em extinguir o pedido de Reintegração de Posse realizado anteriormente.

Desde janeiro de 2017, 20 famílias Guarani Mbya retomaram a área da Fepagro (Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária), no Município de Maquiné, litoral Norte do Rio Grande do Sul. Os indígenas estabeleceram uma aldeia no local e reinvidicavam a demarcação da área. Na época, o Cacique André Benites, afirmava que a retomada significa uma luta pelo futuro, pela preservação do espaço e pela perpetuação da cultura Guarani, mas também  uma forma de luta pelo passado, pela memória dos ancestrais que ali viviam até mesmo antes da chegada do europeu e da intervenção do Estado. “A gente não está invadindo, só entramos em território que já era nosso”.