Encontro reúne caciques Mbya Guarani de mais de 40 aldeias do RS

O I Encontro de Caciques Mbya Guarani constitui-se em um importante espaço de comunicação entre as lideranças e de reflexões de luta em defesa dos direitos dos povos originários

Entre os dias 22 e 26 de novembro, caciques e lideranças Mbya Guarani de mais de 40 aldeias realizaram um encontro em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, para um importante momento de troca de experiências e para discutir os próximos passos na luta em defesa de seus direitos. 

No documento resultante deste encontro, destacam a principal preocupação com a demarcação de seus territórios, situação que amplia a vulnerabilidade e coloca as populações Guarani em risco, especialmente, em disputas com o agronegócio que avançam nos últimos anos: “Há, hoje, muitas demarcações paralisadas e outras que não passaram nem pela abertura do procedimento de demarcação, submetendo, com isso, nossas famílias a viverem em situação de vulnerabilidade – sem alimento, sem água potável e sem poder fazer nossas roças com nossas sementes tradicionais”. “A terra é principal para a comunidade Guarani para fortalecermos nossa cultura”, lembra o cacique Santiago Franco, da Aldeia Yvy’a Poty, localizada no município de Barra do Ribeiro, região metropolitana. 

O momento foi de reafirmar que “esta terra tem dono” e que as populações originárias não sairão de suas comunidades, mesmo com as pressões de setores privados e do próprio Estado. Por isso, é importante a articulação social no apoio e defesa dos direitos originários: “Nesta luta pela terra, queremos e precisamos contar com nossos apoiadores, entidades, organizações, conselhos”, traz trecho do documento. O encontro também abordou as necessidades políticas de saúde e educação, na intenção de mapear as demandas dos territórios, assim como sobre moradia e assistência para a agricultura. Este foi o primeiro encontro ocorrido desde o início da pandemia de COVID-19.

Para além das denúncias de  encontro também foi um momento de reflexão sobre os rumos do encontro entre as culturas indígenas e dos brancos, que especialmente através da tecnologia afetam os modos de vida e a visão de mundo, principalmente, da juventude das comunidades. O I Encontro de Caciques Mbya Guarani constitui-se em um importante espaço de comunicação entre as lideranças e de reflexões, fortalecendo laços para lutar com união na defesa dos direitos comuns dos povos originários do sul do Brasil. 

A liderança Elóir Wera Xondaro, que é professor na aldeia Nhundy da Estiva, resume de forma tocante o pedido de respeito aos não indígenas. Ele reafirma que até então as populações indígenas não são respeitadas e denuncia os ataques que vem sofrendo e que se intensificaram nos últimos anos, em especial nas últimas semanas com o incêndio criminoso de diversas casas de reza no RS e no país: “Queria deixar um recado para sociedade não indígena, dizer que nós também somos seres humanos iguais a vocês. Somos diferentes na etnia, na raça, na ação, mas temos sonhos, temos anseios, igual a vocês”, pontua.

Confira no vídeo a fala das lideranças sobre o encontro:

Leia a íntegra do documento:

Encontro de Caciques, Kunhãs Karai, Karai e Lideranças Mbya Guarani do Rio Grande do Sul

Nós, lideranças Mbya Guarani do Rio Grande do Sul, realizamos, entre os dias 22 e 26 de novembro de 2021, um importante encontro no Tekoa Anhetengua, na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. O encontro contou com a presença de caciques, de Kunhãs Karai, Karai e outros líderes de mais de 40 comunidades.

Este encontro foi bastante oportuno para que pudéssemos tratar de temas que afetam o nosso cotidiano, as nossas comunidades, as vidas de nossos jovens, velhos e crianças.

Neste contexto nos preocupa, sobretudo, as questões relativas a não demarcação e garantia de nossos territórios. Há, hoje, muitas demarcações paralisadas e outras que não passaram nem pela abertura do procedimento de demarcação, submetendo, com isso, nossas famílias a viverem em situação de vulnerabilidade – sem alimento, sem água potável e sem poder fazer nossas roças com nossas sementes tradicionais.

Há a preocupação com as comunidades que foram assentadas nas áreas do estado do Rio Grande do Sul e parece haver um movimento, dentro governo, para nos remover destas terras. Alertamos, desde já, que não sairemos de nossas comunidades. E, nesta luta pela terra, queremos e precisamos contar com nossos apoiadores, entidades, organizações, conselhos.

Também nos causa grande preocupação a proximidade dos juruá (os brancos) com sua cultura de dominação e com suas tecnologias. Estão causando grandes impactos na cultura, no nosso modo de ser e viver, porque afetam diretamente o dia a dia de nossos jovens, das nossas famílias e de todas as nossas comunidades.

O encontro foi oportuno também para discutirmos as questões relativas às políticas de atenção diferenciada em saúde, educação escolar e, ainda, temos grandes necessidades no que se referem as demandas de habitação e agricultura.

Os conflitos advindos de arrendamentos de terras, no Rio do Sul, nos enchem de preocupação, pois estamos percebendo que os arrendamentos de terras não afetam apenas o povo Kaingang, mas a todos nós. Isso porque, mesmo nas pequenas áreas onde vivemos, nossas comunidades são procuradas e pressionadas pelos juruá para que eles possam plantar e produzir nas terras que são nossas. A pressão é grande e exigimos mais empenho da Funai e do Ministério Público Federal (MP) no sentido de fiscalizar essas situações e responsabilizar os brancos que querem ganhar dinheiro com nossas pequenas áreas de terras – retirando dos Mbya o pouco que conseguimos com muita luta e mobilização.

Durante todos os nossos debates procuramos dialogar sobre a nossa organização social e política nos Tekoa. Também tratamos dos temas organizacionais mais amplos, porque percebemos que existem inúmeras articulações, organizações e mobilizações dos Mbya Guarani nas diferentes regiões – o que para nós é muito importante.

No entanto, avaliamos que elas precisam estar em sintonia com nossas lideranças para que não funcionem separadamente – cada uma com suas pautas e prioridades, formando movimentos paralelos, ou como se fossem uma espécie de caixinhas onde se guardam os temas e as questões de forma separadas.

E, nesse sentido, queremos que a Comissão Guarani Yvyrupa seja um espaço de promoção e apoio de nossos encontros e esteja presente nas nossas reuniões para tratar, conosco, de nossos temas, demandas, reivindicações e direitos constitucionais.

Esse nosso encontro constituiu-se num importante espaço de comunicação entre as lideranças e de troca de ideias, reflexões, sempre amparadas pelas boas palavras, pelos bons ensinamentos e com muita união.

Anhetengua, Porto Alegre, RS, 25 de novembro de 2021.

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